18
Mar 09

Quando escrevi o livro, eu era uma professora de Francês numa escola para rapazes em Leeds. E ainda são muitas as vezes que me vejo a mim própria assim. É fácil viver num mundo de fantasia quando a vida real se resume à rotina, mas quando a realidade começa a pregar-nos partidas, as coisas complicam-se. Foram muitas as vezes, nestes últimos três anos, que dei por mim genuinamente sem ter a certeza se me encontrava a sonhar ou não.

Suponho que tudo tenha começado com a Juliette Binoche. Jogando ao jogo de “e se…” (e se o meu livro fosse publicado, e se viesse a dar um filme, e se eu pudesse escolher alguém para o protagonizar…), vi tudo com nitidez antes mesmo do livro estar concluído. Alguns dos detalhes foram alterados, alguns actores foram entrando ou saindo das boas graças, mas na minha mente sempre vi a Juliette Binoche como Vianne. Sabia que ao assinar o acordo de transposição para o cinema, dera à Miramax o direito de localizar o filme no espaço, se eles bem entendessem, mas, mesmo assim, continuei a mencionar a Juliette Binoche a toda a gente que ia conhecendo, como se através de um processo de desgaste eu pudesse levar a minha avante.

A indústria cinematográfica é como um enorme dinossauro; demora imenso tempo para que as ordens do cérebro cheguem às várias partes do corpo, e depois de assinar o acordo não ouvi falar mais de Chocolate durante dezoito meses. Não era nada que não estivesse à espera; sabia que a maior parte dos livros com direitos vendidos para o cinema não chega aos ecrãs e que a maior parte dos projectos cinematográficos são abandonados no último minuto. Um sábio amigo meu disse-me que, no que toca a Hollywood, só deveria acreditar nas coisas quando estivesse no cinema a ver os créditos a passar. Era um bom conselho. Apesar disso, continuava a mencionar a Juliette Binoche sempre que alguém me ouvia.

Depois, começaram os primeiros rumores. A Internet é um excelente sítio para se estar a par de rumores. A maior parte da informação que tive veio daí; o nome do argumentista; o debate em torno do elenco; a contratação de Lasse Hallström para realizador. A Miramax permaneceu teimosamente silenciosa, mas era óbvio para mim que algo estava a mexer dentro do dinossauro de Hollywood. Recebi uma cópia do argumento de Bob Jacob para ler; gostei bastante, apesar das alterações na história. Mas continuei a não ter expectativas.

Seis meses depois, os rumores subiram de tom. E começaram a contradizerem-se; um dia a Miramax tinha escolhido a Gwyneth Paltrow, no outro a Julia Roberts, depois a Whoopi Goldberg. Ninguém parecia ter prestado atenção às minhas dicas em relação à Juliette Binoche.

Até que ela me telefonou. Tinha lido o livro e falado com o Harvey Weinstein para lhe dar o papel. (Porque não me tinha lembrado disso? Mas suponho que isso só funcione quando se é a Juliette Binoche.) Ela lera o argumento mas tinha algumas reservas em relação a partes dos diálogos. Podia encontrar-me com ela em Paris para discutir isso?

Este foi o momento em que comecei a questionar a minha noção da realidade. Nada na minha vida em Barnsley ou a ensinar na Leeds Grammar School me tinha preparado para isto. Encontramo-nos num café para tomar chá, comer bolos e rever o argumento (houve um momento maravilhoso quando o garçom altivo que me ignorara ao sentar-me se apercebeu subitamente de quem eu estava à espera). No grande ecrã, a Juliette parece muitas vezes etérea e um pouco melancólica; na vida real, é divertida, cheia de vivacidade e muito inteligente. Ele desempenha o papel de estrela extremamente bem quando é preciso (nas estreias e com jornalistas mal-educados), mas acima de tudo é uma pessoa normal com um emprego a sério. Falámos durante horas; quando superei o meu temor, descobri que tínhamos muitas coisas em comum. Chegámos à conclusão de que precisávamos de falar mais, e a Juliette fez-se de convidada para passar um fim-de-semana em minha casa no mês seguinte, para revermos o argumento detalhadamente.

(Segunda parte de um artigo da autoria de Joanne Harris, publicado no Daily Telegraph, sobre a adaptação de Chocolate ao cinema. Não perca o resto.)

publicado por Rita Mello às 10:26

5 comentários:
Parabéns pelo destaque.
Tem um blog interessante e desejo-lhe a maior sorte do mundo.
Saudações Reikianas
NAMASTÊ
Viktor a 19 de Março de 2009 às 11:42

Obrigada!
Namastê
Rita Mello a 19 de Março de 2009 às 12:00

Olá! Isto é um post de pedido de desculpas, de visita e de saudaçôes...uma vez que já trocamos alguns e-mails e já me foste visitar no meu espaço...desculpa a demora mas nunca é tarde demais pois não? Tal como tu eu tenho todos os livros da Joanne e um deles autografado e que me foi dado estava eu no hospital a recuperar duma operação!! Gostei do teu cantinho pleno de leituras :) até breve! Beijinhos da C. :)
um ponto azul a 20 de Março de 2009 às 16:33

Olá, Cláudia! É sempre um prazer receber uma visita de uma grande fã da Joanne Harris. Já sabes que a tua colaboração é sempre bem-vinda
Beijinhos da Rita*
Rita Mello a 23 de Março de 2009 às 09:52

Achei que o livro estava muito bem escrito e muito ggggiro!!!!!!!!!!!
Anónimo a 19 de Maio de 2009 às 20:42

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