20
Mar 09

Os dinossauros conseguem mover-se com rapidez mal o cérebro esteja em pleno funcionamento. Depois do meu encontro com a Juliette aconteceram bastantes coisas; o elenco começou a ser reunido; o argumento foi várias vezes reescrito; a data para o início das filmagens foi fixada para 2 de Maio. Não tenho um quarto para visitas em casa, por isso, a Juliette teve de dormir na cama da Anouchka (rodeada de brinquedos e de retratos de astronautas), enquanto esquadrinhávamos todas as linhas do argumento de Chocolate, fazendo alterações à medida que avançávamos. Ela leu a  sua parte em voz alta; eu li o resto. Bebemos litros de chocolate quente. E eu continuei a beliscar-me.

Uma das razões porque me lembrei da Juliette para o papel foi o facto de ela ter uma criança da mesma idade que a minha filha Anouchka, que tem um papel de destaque no livro. A relação entre mãe e filha é a mais forte da história, e tinha esperanças de que trouxesse alguma da sua experiência para o papel. E tinha razão; ela e a Anouchka deram-se lindamente (apesar da Anouchka insistir em referir-se a ela como “Juliette Brioche”), e tínhamos todas um forte pressentimento de que o Pantoufle, o coelho invisível da minha filha (com um papel-chave no livro) se transformara, cortesia da Miramax, num canguru. Infelizmente, apesar disso, o canguru continuou lá. É o meu único arrependimento.

No entanto, fizemos progressos no argumento. Em circunstâncias normais, apenas teria tido um pequeno envolvimento por cortesia, como bem sabe quem já vendeu a alma a Hollywood, mas é incrível o que podemos fazer quando temos uma grande estrela do nosso lado. A maior parte das minhas sugestões foram adoptadas. De repente, fui consultada para uma série de coisas, desde a banda sonora até à forma correcta para lançar runas. As saquinhas vermelhas de boa sorte que Vianne pendura por cima das portas foram levadas de minha casa pela Juliette durante a sua estadia. Até agora, acho que a sorte está a funcionar.

As filmagens começaram na semana seguinte em Bath, depois em França. Passei as últimas duas semanas no local de filmagens em Shepperton, onde a maior parte dos cenários interiores foi construída. Era, simultaneamente, muito e pouco parecido com o que tinha imaginado. Os cenários eram perturbadoramente familiares; reconheci a casa da minha avó em França, bem como o quarto dela e todos os tachos e panelas que estavam pendurados na parede; a chocolataria era exactamente como a tinha imaginado, mas para melhor, com filas de frascos de compotas nas paredes e as estranhas figuras mexicanas a guardar o tesouro de chocolate. Havia até uma homenagem ao Pantoufle original na janela – um coelho de chocolate e maçapão com uma capa e um chapéu de mágico. Encontra-se agora no quarto de Anouchka. O facto de ela ainda não o ter comido é o maior elogio que consigo imaginar.

O chocolate é uma substância que provoca alterações de humor. Suspeitei sempre disso (em doze anos de ensino, nunca me desiludiu) e, finalmente, vi a prova durante as filmagens de Chocolate. O local das filmagens consegue ser um lugar muito stressante. Os orçamentos, os prazos, os conflitos pessoais são indicadores de que os ânimos estão muitas vezes exaltados, especialmente quando o tempo avança. Mas aqui não se passou nada disso. Parecia que toda a gente se estava a divertir. Lasse Hallström (que tinha imaginado ser uma figura assustadora com um boné e um megafone) foi encantador, nunca levantando a voz ou dando qualquer sinal de impaciência. O aroma do chocolate proveniente do fogão portátil atrás do cenário era tão forte que actores de outros cenários arranjavam desculpas para se deixarem ficar por lá, a sentirem o aroma com inveja. Apesar do frenesim atrás dos bastidores, ninguém parecia estar demasiado ocupado para falar comigo. Havia uma atmosfera de energia criativa e alegre. Até o fotógrafo estava a sorrir. Só podia ser do chocolate.

No entanto, quando tudo acabou, eu sabia que tinha tido muita sorte. Sentia-me como alguém que vagueara por um perigoso labirinto, andando à sorte, e que, contra todas as probabilidades, tinha atingido às cegas o prémio final. Isso fez-me sentir um pouco culpada e quase que quis odiar o filme, como se fosse uma compensação por ter tido um percurso tão fácil até aí. Mas não o odiei. Foi tudo o que esperei que fosse, caloroso, divertido e descontraído, com ironia suficiente para não ser lamechas. Ao estar sentada a vê-lo pela primeira vez em Nova Iorque, a comer pipocas e a ver os créditos a passar, pergunto-me cautelosamente se já é seguro começar a acreditar em tudo isto.

publicado por Rita Mello às 12:12

18
Mar 09

Quando escrevi o livro, eu era uma professora de Francês numa escola para rapazes em Leeds. E ainda são muitas as vezes que me vejo a mim própria assim. É fácil viver num mundo de fantasia quando a vida real se resume à rotina, mas quando a realidade começa a pregar-nos partidas, as coisas complicam-se. Foram muitas as vezes, nestes últimos três anos, que dei por mim genuinamente sem ter a certeza se me encontrava a sonhar ou não.

Suponho que tudo tenha começado com a Juliette Binoche. Jogando ao jogo de “e se…” (e se o meu livro fosse publicado, e se viesse a dar um filme, e se eu pudesse escolher alguém para o protagonizar…), vi tudo com nitidez antes mesmo do livro estar concluído. Alguns dos detalhes foram alterados, alguns actores foram entrando ou saindo das boas graças, mas na minha mente sempre vi a Juliette Binoche como Vianne. Sabia que ao assinar o acordo de transposição para o cinema, dera à Miramax o direito de localizar o filme no espaço, se eles bem entendessem, mas, mesmo assim, continuei a mencionar a Juliette Binoche a toda a gente que ia conhecendo, como se através de um processo de desgaste eu pudesse levar a minha avante.

A indústria cinematográfica é como um enorme dinossauro; demora imenso tempo para que as ordens do cérebro cheguem às várias partes do corpo, e depois de assinar o acordo não ouvi falar mais de Chocolate durante dezoito meses. Não era nada que não estivesse à espera; sabia que a maior parte dos livros com direitos vendidos para o cinema não chega aos ecrãs e que a maior parte dos projectos cinematográficos são abandonados no último minuto. Um sábio amigo meu disse-me que, no que toca a Hollywood, só deveria acreditar nas coisas quando estivesse no cinema a ver os créditos a passar. Era um bom conselho. Apesar disso, continuava a mencionar a Juliette Binoche sempre que alguém me ouvia.

Depois, começaram os primeiros rumores. A Internet é um excelente sítio para se estar a par de rumores. A maior parte da informação que tive veio daí; o nome do argumentista; o debate em torno do elenco; a contratação de Lasse Hallström para realizador. A Miramax permaneceu teimosamente silenciosa, mas era óbvio para mim que algo estava a mexer dentro do dinossauro de Hollywood. Recebi uma cópia do argumento de Bob Jacob para ler; gostei bastante, apesar das alterações na história. Mas continuei a não ter expectativas.

Seis meses depois, os rumores subiram de tom. E começaram a contradizerem-se; um dia a Miramax tinha escolhido a Gwyneth Paltrow, no outro a Julia Roberts, depois a Whoopi Goldberg. Ninguém parecia ter prestado atenção às minhas dicas em relação à Juliette Binoche.

Até que ela me telefonou. Tinha lido o livro e falado com o Harvey Weinstein para lhe dar o papel. (Porque não me tinha lembrado disso? Mas suponho que isso só funcione quando se é a Juliette Binoche.) Ela lera o argumento mas tinha algumas reservas em relação a partes dos diálogos. Podia encontrar-me com ela em Paris para discutir isso?

Este foi o momento em que comecei a questionar a minha noção da realidade. Nada na minha vida em Barnsley ou a ensinar na Leeds Grammar School me tinha preparado para isto. Encontramo-nos num café para tomar chá, comer bolos e rever o argumento (houve um momento maravilhoso quando o garçom altivo que me ignorara ao sentar-me se apercebeu subitamente de quem eu estava à espera). No grande ecrã, a Juliette parece muitas vezes etérea e um pouco melancólica; na vida real, é divertida, cheia de vivacidade e muito inteligente. Ele desempenha o papel de estrela extremamente bem quando é preciso (nas estreias e com jornalistas mal-educados), mas acima de tudo é uma pessoa normal com um emprego a sério. Falámos durante horas; quando superei o meu temor, descobri que tínhamos muitas coisas em comum. Chegámos à conclusão de que precisávamos de falar mais, e a Juliette fez-se de convidada para passar um fim-de-semana em minha casa no mês seguinte, para revermos o argumento detalhadamente.

(Segunda parte de um artigo da autoria de Joanne Harris, publicado no Daily Telegraph, sobre a adaptação de Chocolate ao cinema. Não perca o resto.)

publicado por Rita Mello às 10:26

17
Mar 09

A praça da aldeia está coberta por uma leve camada de neve. Algumas pessoas de chapéu e casaco de inverno jogam pétanque, enquanto um grupo de crianças aglomera-se junto de um terrier. Três senhoras de idade vestidas de preto atravessam a praça, detendo-se momentaneamente para espreitar para a montra de uma das pequenas lojas que está virada para a igreja. À primeira vista, esta cena parece quase real.

É claro que há coisas que não batem certo. O calor pouco usual para a época. O misterioso mas tentador aroma do chocolate. E o facto de uma das senhoras de idade parecer suspeitosamente com Leslie Caron, que interpretou o papel de Gigi, no musical homónimo, há quase meio século.

Não obstante estes detalhes, a ilusão é quase perfeita. E é bom que o seja; a praça principal desta aldeia francesa foi cuidadosamente recriada pedra a pedra. Reconheço-a instantaneamente, apesar de nunca ali ter estado. Reconheço a loja também, apesar do nome ser diferente. Reconheço as pessoas, apesar de nunca nos termos conhecido. E até reconheço o cão. Fazem todos parte do meu romance Chocolate, e este é o cenário do filme.

A cena tem os elementos surreais de um sonho. De um dos lados, consigo ver a Carrie-Anne Moss envergando um impecável saia-casaco, pérolas, chapéu e luvas brancas e passando a alta velocidade numa pequena scooter por uma mesa comprida coberta de bolos; Juliette Binoche está sentada numa cadeira de lona enquanto lhe arranjam o cabelo; uma pequena rapariga com uma capa vermelha está a trepar um andaime e, ao dobrar a esquina a seguir a uma enorme fileira de luzes, vejo uma mulher sozinha na semiescuridão, a mexer um grande tacho num fogão portátil. Aproximo-me e descubro que o tacho tem chocolate derretido. O aroma que emana é tão forte e rico que enche todo o lugar, aldeia incluída. Dispostas à minha frente, em mesas compridas, estão centenas de figuras de chocolate de todos os tamanhos e feitios; coelhos, cordeiros, peixes, galinhas. E todas elas parecem olhar-me nos olhos. É o suficiente para qualquer pessoa perder o sentido da realidade.

As pessoas perguntam-me com frequência: alguma vez imaginou que isto pudesse acontecer?

De todas as perguntas que tenho de responder, esta é a que mais me assusta. Poderia ter alguma vez imaginado que o meu pequeno livro, escrito nas manhãs de domingo entre o meu emprego como professora e a minha filha de três anos, iria provocar tudo isto?

É claro que sim. No fim de contas, é isso o que eu faço. Imagino coisas.

No entanto, não espero que elas se realizem.

(Primeira parte de um artigo da autoria de Joanne Harris, publicado no Daily Telegraph, sobre a adaptação de Chocolate ao cinema. Não perca o resto nos próximos dias)

publicado por Rita Mello às 09:57

16
Mar 09

Chocolate, da escritora Joanne Harris, é um romance de sabores, de odores doces lentamente degustados, quase de gula. Nele, encontramo-nos perante o secular combate entre a luz e as trevas. Só que de uma maneira pouco comum, pois desta vez as trevas são personificadas por um jovem padre intolerante, na sua soturna batina, e a luz por uma encantadora bruxa boa dos nossos dias.

Esta é uma espécie de história de encantar da idade moderna, mas com as personagens trocadas. E, assim, temos como pólos opostos deste lindíssimo romance: a magia e o fanatismo. A alegria de viver e a perversidade, sendo o seu clima uma deliciosa mistura de licores, de cremes e de açúcares: dos coelhinhos de maçapão aos folhados, dos rebuçados aos caramelos, ao chocolate a fumegar nas chávenas.

Mas este texto, que se lê de um fôlego, difere ainda na imagem quase subversiva como nos é mostrado o relacionamento mãe/filha, numa amálgama de afectos intensos, raríssimos e autênticos. Joanne Harris conta neste seu romance a história pouco comum de Vianne Rocher, mãe solteira, e da sua pequena filha Anouk, que vão percorrendo o mundo, deixando atrás de si um rasto de felicidade, tal como anteriormente acontecera com a sua mãe e ela própria. Ambas enfrentam, com os seus poderes, a sua inteligência e prazer de viver, aqueles que têm na tirania e na crueldade a sua melhor arma.

E, nessa luta, são implacáveis e hábeis; entre a repugnância e o fascínio; entre a perturbação e a raiva. Dissimuladamente. Vianne tem a arte de transformar o azar em sorte. Aliando a coragem ao gosto pelo desafio, sensualidade e um carácter forte. Dos seus lábios e dedos partem o sorriso, a ajuda e os doces. E é na descrição, na construção de tudo isto, que Joanne se supera. E por isso dá tanto gosto ler Chocolate: um livro-outro, luxuriante, que apetece ler. Mas que, igualmente, apetece quase… comer.

 

Artigo da autoria de Maria Teresa Horta, publicado no Diário de Notícias, no dia 15 de Agosto de 1999.

publicado por Rita Mello às 12:41

13
Mar 09

“De fazer crescer água na boca… Uma celebração do prazer, do amor e da tolerância.”

The Observer

“Sensual e provocante… Um livro espectacular.”

The Daily Telegraph

“Um livro muito especial.”

Kirkus Reviews

“Excelente.”

Literary Review

“Irresistível.”

Entertainment Weekly

publicado por Rita Mello às 11:26

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