18
Out 12

publicado por Rita Mello às 14:06

09
Out 12

Como foi regressar a Lansquenet?

Tal como Vianne, também eu estive relutante em regressar. Tal como Vianne, eu estava dividida entre o meu desejo de explorar novos lugares e o sentimento de que tinha deixado algo de importante para trás. No final, foi surpreendentemente fácil. Tinha medo que se tivesse tornado irreconhecível, o que me teria deixado triste, mas de alguma forma também teria ficado insatisfeita se não tivesse mudado nada. Em Chocolate, eu retratei um tipo de comunidade francesa rural e isolada que sofrera poucas mudanças nos últimos cinquenta anos; em O Aroma das Especiarias eu queria mostrar o efeito da mudança naquela comunidade. Foi por isso que introduzi outro grupo étnico em Lansquenet – uma ocorrência pouco usual no Sudoeste rural – para explorar as formas como duas culturas bastante distintas podem interagir (ou não) num cenário tão tradicional.

Quando é que a história se desenrola exatamente?

Chocolate era de alguma forma intemporal, podia se ter passado em qualquer época. Os Sapatos de Rebuçado, com Paris como cenário, era inevitavelmente passado na atualidade. O Aroma das Especiarias desenrola-se num período específico: o Ramadão, em agosto de 2010, pouco antes de o governo francês proibir o véu islâmico.

Não é um bocado arriscado escrever sobre o islão hoje em dia?

O Aroma das Especiarias não é sobre o islão, tal como Chocolate não era sobre o catolicismo. Ambas as histórias são sobre intolerância, preconceito, xenofobia e sobre o modo como a religião pode ser usada para reforçar isso.

De onde lhe surgiu a ideia?

Eu vivo numa cidade com uma população muçulmana substancial. E reparei no número crescente de jovens a usar o niqab. Falei com algumas delas sobre os seus motivos e recebi respostas muito distintas, desde: “Porque o meu marido quer que o faça”, “Porque não quero falar com ninguém que não conheça”, “Porque tenho o direito de o fazer”. Ao mesmo tempo, a França estava a preparar-se para banir totalmente o véu (até os lenços de cabeça foram banidos na escola). Na altura pareceu-me fazer bastante sentido trazer este assunto para Lansquenet.

Fala-se muito sobre o uso do niqab no seu livro. Porquê?

Porque acho esse assunto interessante. Por um lado é uma forte imagem de isolamento, por outro lado é um pedaço muito pequeno de tecido que causa enorme controvérsia. O véu significa muita coisa para muitas pessoas ao longo dos anos: um símbolo de opressão, um sinal de devoção, uma bandeira de protesto político. Em França, um país que tem bastante orgulho nos seus ideais de liberdade e igualdade, foi banido. E eu estou interessada nas razões.

Acha que deve ser banido?

Preferia que as mulheres não usassem o véu, mas não tenho a certeza se a legislação é capaz de abordar os motivos complexos que o rodeiam, que se tornaram políticos, em vez de simplesmente religiosos. Não acho que a política e a religião se devam misturar. Desconfio de toda a gente que usa a religião como parte da sua agenda política.

Em Chocolate, o padre é o mau da fita. Em O Aroma das Especiarias, ele é quase o herói. Porquê?

Eu sempre pensei em Francis Reynaud mais como uma figura incompreendida do que como mau. Ele tem imensos defeitos: é intolerante, crítico e arrogante – mas sempre fez o que achou melhor segundo os seus princípios. Mas, tal como Vianne, em Os Sapatos de Rebuçado, Reynaud tem uma jornada a percorrer e, de certo modo, O Aroma das Especiarias é a sua história.

E Vianne?

Também é a história dela. Sempre achei que Vianne e Reynaud tinham mais em comum do que sabiam. Muitos leitores de Chocolate assumiram logo um retrato a preto e branco dos dois protagonistas. Acho que vão ter de reavaliar as suas opiniões.

Revisita outras personagens de Chocolate neste livro?

Sim. Desde Chocolate que fiquei preocupada com o facto de ter deixado muitas coisas por resolver – especialmente a relação entre Joséphine e Roux. Em O Aroma a Especiarias, algumas dessas questões são respondidas. Nem todas, mas a vida é mesmo assim…

E Inès Bencharki? Fale um bocado sobre ela.

A mulher no seio dos problemas atuais de Lansquenet tem algumas semelhanças com a própria Vianne. Tal como Vianne, ela é uma mulher solteira com uma filha jovem. Tal como Vianne, ela muda-se para a casa em frente à igreja e entra em conflito com o curé. Mas, ao contrário de Vianne, Inès é ferozmente reservada, mesmo em relação à sua própria comunidade de Les Maurads. Escondida sob o véu preto ela é impermeável a boatos, hostilidade e ofertas de amizade. Nem mesmo a magia de Vianne – e os seus chocolates – tem poder sobre ela.

Então, Vianne encontrou finalmente uma rival à altura?

Em todos estes livros, os principais adversários de Vianne têm algumas características dela. Em Chocolate, ela tinha de enfrentar o espectro dos Homens de Preto, um medo de infância personificado por Francis Reynaud. Em Os Sapatos de Rebuçado, era o espectro de Zozie de l’Alba, uma imagem do que Vianne poderia ter sido se não tivesse tido as filhas. Em O Aroma das Especiarias, Vianne terá de confrontar os seus receios e o seu preconceito…

Porque se passa o livro durante o Ramadão?

Em parte porque gosto dos paralelos com Chocolate, que se passava durante a Quaresma. A relação entre jejum e banquetes é complexa e eu queria revisitar a idea através de uma perspetiva diferente.

Foi um desafio escrever sobre uma cultura diferente?

É sempre um desafio, mas não acho que seja tanto sobre escrever sobre uma cultura em particular mas mais sobre perceber o que as pessoas acham importante. O meu ponto de partida é a comida, mas a comida como reflexo do que as pessoas sentem e como se relacionam uns com os outros, mais do que uma coleção de receitas.

Há muita sensualidade neste livro. Foi deliberado?

Na verdade não planeio estas coisas. Mas gosto que uma história seja uma experiência completa, o que significa que gosto de explorar sabores, aromas e sensações, bem como sons e impressões visuais.

E a magia? Há lugar para a magia num livro passado nos tempos atuais?

Sem dúvida. Até acho que nunca precisamos tanto de magia. Mas a minha magia nunca foi pirotécnica. É a magia do dia a dia, que é mais sobre mudança do que outra coisa – isto é, mudar o mundo à nossa volta, um passo de cada vez, bem como mudar a forma como os outros nos veem, que é o género de magia a que todos temos acesso…

publicado por Rita Mello às 10:40

01
Out 12

 

 

O Aroma das Especiarias, o novo volume da saga Chocolate, de Joanne Harris, continua a sua caminhada nos tops de livros mais vendidos em Portugal, encontrando-se em 4.º no Auchan e na LeYaOnline, 6.º na Sonae, 7.º na FNAC e Bulhosa, e 9.º no El Corte Inglés.

Nunca Digas Adeus, o mais recente romance de Lesley Pearse, está em 7.º no Pingo Doce, 8.º no Auchan e 9.º na Sonae.

publicado por Rita Mello às 14:42

subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
links
Leitores
blogs SAPO