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Dez 08

Muitos leitores assumem que os meus livros são autobiográficos. Isto não é verdade, apesar de a minha escrita reflectir por vezes o que me está a acontecer nessa altura. Enquanto escrevia Cinco Quartos de Laranja, eu estava a sofrer de enxaquecas e de insónias, e isso transpareceu vividamente na história. Em Chocolate e Na Corda Bamba apareciam mães trabalhadores com filhas novas, em ambos os casos constrangidas por algum tipo de instituição – o que reflecte o meu próprio papel dúplice como professora na Leeds Grammar School e como mãe de uma criança pequena. Nem sempre estou consciente de que estou a fazer isto, nem de que tenha sido de propósito, mas acontece; e muitas vezes são estes os aspectos dos meus romances com que os leitores mais se identificam. Apesar das histórias poderem ser ficcionais, os sentimentos dentro delas – quer sejam eles o ódio, o amor, a inveja ou a necessidade desesperante de uma boa noite de sono – são meus. Não consigo escrever sobre coisas acerca das quais não tenho sentimentos fortes, e é por isso que escolho cenários familiares para as minhas histórias e as povoo com personagens meio familiares.

 

Escrevo pelos menos três esboços para cada romance. O primeiro é para consumo próprio, o segundo vai para a minha agente e o terceiro vai com as sugestões, críticas e alterações que os meus vários editores e leitores me enviaram. Às vezes discordo deles, e nesse caso não faço nenhuma alteração. No início, mudava alguns aspectos da minha escrita para facilitar o processo de publicação, e desde essa altura que me arrependo disso; agora arrisco mais e sigo mais depressa os meus instintos. Gosto de arriscar na narrativa. Prefiro manter o enredo do romance flexível, daí que raramente tenha toda a história planeada. Detesto escrever sinopses – apesar de os editores quererem sempre ver uma – porque raramente tenho informações suficientes sobre os meus livros para poder explicar o que vai acontecer no final. Frequentemente, as reviravoltas e revelações de última hora nos meus livros apanham-me tanto de surpresa como ao leitor. Adoro quando isso acontece, porque é sinal de que as personagens, e não o autor, apoderaram-se do livro. Por outro lado, torna-se mais difícil para mim estruturar a obra final.

 

Ainda escrevo largamente por prazer. Acho alguns dos aspectos não criativos do trabalho aborrecidos – coisas como a revisão e a edição – e tendo a ser impaciente com isso, porque tiram-me tempo àquilo que eu gostaria de estar a fazer, que é escrever histórias. Eu executo estas tarefas administrativas em dias em que não me consigo concentrar no processo criativo, ou em alturas do dia em que sei que já esgotei a minha inspiração. Acabo de trabalhar por volta das três da tarde. De qualquer forma, já não consigo pensar bem nessa altura e preciso de descontrair antes de a minha filha chegar a casa da escola. Tento não trabalhar quando ela está em casa; e quando ela está de férias eu só trabalho até à hora de almoço e depois passamos o resto do dia juntas. O tempo é um bem tão precioso, e nós temos tão pouco. Ao final da tarde gosto de descontrair na banheira – o único sítio onde consigo ler sem ser interrompida – com algumas velas aromáticas e uma garrafa de vinho. Não se isso faz parte ou não do processo criativo – mas, de qualquer forma, é a desculpa que eu dou.

publicado por Rita Mello às 16:21

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