05
Jan 09

Há cerca de um ano, por altura da edição de Sapatos de Rebuçado, a Waterstone's Books Quarterly publicou uma excelente entrevista com a Joanne Harris, que vos reproduzo em baixo.

 

 

Os livros de Joanne Harris são como o chocolate negro – doces e intensos – e a sequela de Chocolate é um dos seus mais ricos até ao momento.

 

Apesar de Chocolate não ter sido o primeiro romance de Joanne Harris a ser publicado – essa honra pertence a The Evil Seed, lançado cerca de dez anos antes – foi aquele que a introduziu no imaginário do público comprador de livros e que lhe trouxe um enorme sucesso que continua desde então. Agora, oito anos depois, Joanne Harris regressa ao mundo de Chocolate e às personagens Vianne Rocher e à filha Anouk em particular, no seu mais recente romance, Sapatos de Rebuçado. Joanne Harris teve sempre a intenção de escrever uma sequela da sua obra mais famosa?

 

“Não de todo”, refere a escritora a partir da sua casa em Huddersfield. “Em primeiro lugar, não considero que seja uma sequela, e apenas teria escrito uma continuação se já soubesse o que ia acontecer. Acho que precisava que passasse um certo tempo antes de ter outra história para escrever sobre estas personagens.”

 

O novo romance decorre em Montmartre, onde Vianne, a viver sob o nome Yanne Charbonneau, dirige uma chocolataria, enquanto a filha Anouk se debate com as dificuldades em se manter popular na escola local. Ela tem agora mais uma filha e um pretendente local, mas é a chegada de uma nova assistente na sua vida, a misteriosa Zozie de l’Alba, que vai ser a catalisadora de reviravoltas surpreendentemente sombrias.

 

“Sempre disse que pensava que iria haver outra história”, afirma Joanne Harris, referindo-se ao facto de Chocolate ter deixado um final em aberto, com muitos leitores à espera de mais. “Pensava particularmente que haveria uma história sobre Anouk, mas teria de esperar até que a minha própria filha tivesse essa idade para que houvesse paralelismos suficientes que eu pudesse usar.”

 

Sapatos de Rebuçado, como muita da ficção de Joanne Harris, tem uma tendência oculta que muitos leitores podem achar surpreendente, tendo em conta o design colorido das capas dos seus livros. “Penso que as pessoas se esquecem de que apesar de já ter escrito coisas mais ligeiras e menos exigentes a minha propensão é para o sombrio e o sinistro. Em dias radiosos escrevo livros radiosos e nos outros escrevo o que escrevo.”

 

Suspeitamos que o céu sobre Huddersfield tem estado muito sombrio nos últimos anos porque, tal como o seu anterior romance, Xeque ao Rei, Sapatos de Rebuçado é dominado por personagens malévolas e perturbadas cujas sinistras motivações apenas são reveladas à medida que a história atinge o clímax. “Sim”, concorda Harris. “Penso que depende inteiramente do nosso ponto de vista – no que consideramos destrutivo e malévolo – mas são situações semelhantes e, em ambos os casos, o lugar e a situação não são tão tranquilos quanto aparentavam ser.”

 

“Quando escrevi Chocolate criei um padre que era hostil a qualquer forma de mudança, a tudo o que pudesse minar a sua autoridade, enquanto que em Sapatos de Rebuçado Vianne está a tentar assentar e a tentar bastante ser aquilo que não é, mas a chegada de Zozie à sua vida força-a a compreender que está a viver uma mentira e que isso não resulta.”

 

Questiono-a sobre se gosta de surpreender os leitores com esta viragem para o sombrio e o subversivo – ela parece encantada pelo facto de a sua ficção a conduzir nesse sentido. “Tenho uma tendência para explorar o lado sombrio e há tanta atenção a contos de fadas e ao folclore em Sapatos de Rebuçados que fiquei feliz por ter seguido essa via. Em relação à subversão, não sigo o caminho normal e gosto de passar por cima das convenções da escrita de romances – ter um vilão que não é bem um vilão e que, no final, leva a sua avante e um herói que tem várias facetas obscuras.”

 

Em Cinco Quartos de Laranja, todos os suspeitos do costume foram virados do avesso. Os nazis foram retratados de um modo mais favorável e a Resistência de um modo mais desfavorável. Mas não há nada mais deprimente do que começar um livro e chegar à página 25 e já saber como vai acabar e que todas as pontas soltas vão ser resolvidas. A vida não funciona assim.”

 

Um dos elementos mais distintos em qualquer romance de Joanne Harris é o uso de uma série de vozes diferentes ao contar a história. Em todos os seus romances, com a excepção de Vinho Mágico, é empregue um número de diferentes narradores na primeira pessoa de capítulo a capítulo. Em Sapatos de Rebuçado há três: Vianne, Anouk e Zozie. “Acho mais fácil penetrar na pele de uma personagem ao tentar encontrar uma voz para ela”, explica. “Queria que parecesse que estas três são muito semelhantes em vários aspectos. Zozie e Vianne são dois lados diferentes da mesma moeda e têm muito mais em comum do que aquilo que pensam.”

 

Menciono que o realismo mágico é outra das características dos seus romances mas ela parece menos confortável com esta sugestão. “Não tenho bem a certeza do que é suposto ser o realismo mágico”, afirma. “Acho que ou acreditamos na magia ou não. As pessoas falam-me muitas vezes de escritores como a Isabel Allende e eu tenciono sempre lê-los mas depois não o faço. Acho que é por não querer ser influenciada por eles. Como acredito na magia não acho que exista uma coisa chamada realismo mágico. Há histórias, e ou são mágicas ou não o são. No entanto, para mim, Zozie tem muito mais de sul-americana do que Vianne, por isso coloquei-as em continentes diferentes porque não queria que a magia fosse demasiado semelhante.”

 

Questiono também por que razão a sua produção parece ser extremamente prolífica. “Estou sempre a escrever,” responde-me, “mas esta ilusão de que escrevo um livro por ano é completamente falsa. Tenho sempre várias coisas a fervilhar e consigo estar a trabalhar em dois ou três livros ao mesmo tempo. Por isso, nunca paro. Estou sempre a pensar na próxima coisa. Acho que em termos de realização estou mais contente com Cinco Quartos de Laranja porque achei-o um livro muito difícil de escrever e só o facto de o ter acabado foi um grande feito.”

 

Pergunto se depois do sucesso da versão cinematográfica de Chocolate – nomeado para cinco Óscares em 2001 e protagonizado por Juliette Binoche e Johnny Depp –, está prevista a adaptação ao cinema de Sapatos de Rebuçado. “Não sou bem eu quem decide”, diz a rir-se. “É a decisão de quem quer que consiga juntar 50 milhões de dólares para fazer um filme, e de certeza que eu não vou colocar entraves se eles o quiserem fazer. Adorei o filme Chocolate, foi muito divertido e adoraria fazê-lo outra vez, mas penso que todo esse assunto de opções para o cinema é tão nebuloso e um caminho tão longo que eu, na verdade, não ponho isso em consideração. Será adaptado se tiver de ser adaptado.”

 

E se isso acontecer de certeza que haverá comparações entre as duas histórias, tal como acontecerá após a publicação de Sapatos de Rebuçado, apesar de Joanne Harris não se mostrar preocupada. “Para mim são ambos uma espécie de western”, declara, uma comparação que tem tanto de surpreendente como de acertado. Se Chocolate é Por um Punhado de Dólares, então Sapatos de Rebuçado é O Comboio Apitou Três Vezes.

 

(Artigo da autoria de John Boyne, publicado na Waterstone's Books Quarterly)

publicado por Rita Mello às 14:53

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