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Jan 09

Quarta-feira, 31 de Outubro

Día de los Muertos
 
É relativamente pouco conhecido o facto de, num único ano, serem enviadas a pessoas que morreram cerca de vinte milhões de cartas. As pessoas – viúvas desoladas e presumíveis herdeiros – esquecem-se de suspender o envio de correio e, por isso, as assinaturas de revistas não são canceladas, os amigos distantes não são avisados, as quotas de bibliotecas ficam por pagar. São vinte milhões de circulares, de extractos bancários, de cartões de crédito, de cartas de amor, de lixo postal, de cartões de felicitações, mexericos e contas, que caem diariamente nos tapetes de entrada ou no soalho, atirados displicentemente através de grades, enfiados em caixas de correio, acumulados em vãos de escada, abandonados nos degraus e nos vestíbulos, sem nunca chegarem às mãos dos destinatários. Os mortos não se importam. Mas o mais importante é que os vivos também não. Os vivos preocupam-se apenas com banalidades, completamente alheios a que, muito perto deles, está a acontecer um milagre. Os mortos estão a voltar à vida.
 
Não é preciso muito para ressuscitar os mortos. Uma ou duas contas; um nome; um código postal; nada que não possamos encontrar num velho caixote de lixo, rasgado (talvez por raposas) e deixado como um presente nos degraus da porta da rua. Podemos ficar a saber muito graças ao correio abandonado: nomes, extractos bancários, palavras-passe, endereços de e-mail, códigos de segurança. Através da combinação certa de dados pessoais, é possível abrir uma conta bancária, alugar um carro e, inclusivamente, requerer um novo passaporte. Os mortos já não têm necessidade dessas coisas. Como disse, um presente à espera de ser recolhido.
 
Às vezes, é o Destino em pessoa que faz a entrega, pelo que vale sempre a pena estar alerta. Carpe diem e o Diabo que se dane. É por essa razão que leio sempre a necrologia e por vezes chego a adquirir uma identidade ainda antes de o funeral se realizar. Foi também por isso que, quando vi a tabuleta e, por baixo dela, a caixa de correio a abarrotar de cartas, aceitei a oferta com um sorriso de gratidão.
 
Continue a ler o primeiro capítulo de Sapatos de Rebuçado aqui.

publicado por Rita Mello às 16:30

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