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Fev 09

O vinho fala. Toda a gente sabe isso. Olhemos à nossa volta. Perguntemos ao oráculo na esquina da rua; ao conviva não convidado num banquete de casamento; ao tolo ingénuo. O vinho fala. Ventriloquiza. Tem um milhão de vozes. Solta a língua, arranca-nos segredos que nunca tencionávamos contar, segredos que nem sequer conhecíamos. O vinho berra, disparata, sussurra. Fala de coisas grandiosas, planos esplêndidos, amores trágicos e terríveis traições. Ri às gargalhadas. Ri suavemente entredentes. Chora perante o seu próprio reflexo. Abre o caminho a Verões de há muito tempo e a memórias que melhor seria esquecer. Cada garrafa um sopro de outros tempos, outros lugares; e cada uma, desde a mais comum Liebfraumilch até à imperiosa Veuve Clicquot de 1945, um humilde milagre. Magia do dia-a-dia, chamou-lhe Joe. A transformação de matéria simples no ingrediente dos sonhos. A alquimia do leigo.

 

Eu, por exemplo. Fleurie, 1962. Último sobrevivente de uma caixa de doze, engarrafado e armazenado no ano em que Jay nasceu. «Um vinho vivaz e gárrulo, risonho e um pouco palrador, com um sabor pungente a groselhas pretas», dizia o rótulo. Não propriamente um vinho para se guardar, mas ele fê-lo. Por nostalgia. Para uma ocasião especial. Um aniversário, talvez um casamento. Mas os seus aniversários passaram sem celebração, a beber tinto argentino e a ver velhos westerns. Há cinco anos dispôs-me sobre uma mesa com castiçais de prata, mas não deu em nada. Apesar disso, ele e a rapariga ficaram juntos. Um exército de garrafas chegou com ela – Dom Pérignon, vodca Stolichnaya, Parfait Amour e Mouton-Cadet, cervejas belgas em garrafas de gargalo comprido, vermute Noilly Prat e Fraise des Bois. Também eles falam, sobretudo disparates, uma palradice metálica, como convidados misturando-se numa festa. Recusámo-nos a ter alguma coisa a ver com eles. Enfiaram-nos no fundo da adega, a nós, os três sobreviventes, atrás das cintilantes fileiras destes recém-chegados, e aí ficámos durante cinco anos, esquecidos. Château-Chalon de 58, Sancerre de 71, e eu próprio. O Château-Chalon, vexado com este esquecimento, finge surdez e frequentemente recusa pura e simplesmente falar. «Um vinho macio de grande dignidade e estatura», cita ele nos seus raros momentos de expansividade. Gosta de nos lembrar a sua antiguidade, a longevidade dos vinhos fulvos do Jura. Dá muita importância a isto, assim como ao seu perfume adocicado e casta única. O Sancerre há muito que avinagrou e fala ainda menos, suspirando ocasionalmente, de modo ténue, pela juventude desvanecida.

 

Continue a ler Vinho Mágico aqui.

publicado por Rita Mello às 12:34

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