12
Fev 09

Quando a minha mãe morreu, deixou a quinta ao meu irmão Cassis, a fortuna da adega à minha irmã Reine-Claude, e a mim, a filha mais nova, deixou-me o álbum e um jarro de dois litros contendo uma escura trufa Périgord do tamanho de uma bola de ténis, suspensa em óleo de girassol que solta ainda, quando aberto, o rico e húmido odor do solo da floresta. Uma distribuição de riqueza um pouco desigual, mas a mãe foi sempre uma força da natureza, concedendo os seus favores como lhe apetecia, não deixando transparecer os trâmites da sua lógica peculiar.

 

E, como o Cassis dizia sempre, eu era a preferida.

 

Não que ela alguma vez o tivesse mostrado enquanto era viva. Para a minha mãe nunca havia tempo para indulgências, mesmo que fosse desse género. Não com o marido morto na guerra, e com a quinta para cuidar sozinha. Longe de sermos um conforto na viuvez, éramos um estorvo para ela, com as nossas brincadeiras barulhentas, as nossas lutas, as nossas discussões. Se ficávamos doentes, cuidava de nós com um carinho relutante, como que a calcular os custos da nossa sobrevivência, e o amor que mostrava, manifestava-se nas formas mais elementares: tachos que nos dava para rapar, tachos de doce para rapar os restos, uma mão-cheia de morangos silvestres apanhados na fronteira emaranhada por trás do quintal, entregues num lenço torcido sem um sorriso sequer. O Cassis era o homem da casa. Mostrava ainda menos suavidade com ele do que connosco. A Reinette começou a atrair olhares antes da adolescência, e a minha mãe era suficientemente vaidosa para sentir orgulho com a atenção que ela recebia. Mas eu era a boca a mais, não era nenhum segundo filho para expandir a quinta e não era certamente nenhuma beleza.

 

Fui sempre a mais desordeira, a que discordava sempre, e depois da morte do meu pai tornei-me rabugenta e rebelde. Magrinha e escura, como a minha mãe, com mãos compridas e deselegantes, os pés chatos e uma boca larga, devia lembrar-lhe demasiado dela própria, porque quando olhava para mim havia sempre uma tensão na boca, uma espécie de aprovação estóica, de fatalismo. Como se previsse que seria eu, e não o Cassis nem a Reine-Claude, quem manteria viva a sua memória. Como se tivesse preferido um recipiente mais apropriado.

 

Continue a ler Cinco Quartos de Laranja aqui.

publicado por Rita Mello às 10:31

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