17
Mar 09

A praça da aldeia está coberta por uma leve camada de neve. Algumas pessoas de chapéu e casaco de inverno jogam pétanque, enquanto um grupo de crianças aglomera-se junto de um terrier. Três senhoras de idade vestidas de preto atravessam a praça, detendo-se momentaneamente para espreitar para a montra de uma das pequenas lojas que está virada para a igreja. À primeira vista, esta cena parece quase real.

É claro que há coisas que não batem certo. O calor pouco usual para a época. O misterioso mas tentador aroma do chocolate. E o facto de uma das senhoras de idade parecer suspeitosamente com Leslie Caron, que interpretou o papel de Gigi, no musical homónimo, há quase meio século.

Não obstante estes detalhes, a ilusão é quase perfeita. E é bom que o seja; a praça principal desta aldeia francesa foi cuidadosamente recriada pedra a pedra. Reconheço-a instantaneamente, apesar de nunca ali ter estado. Reconheço a loja também, apesar do nome ser diferente. Reconheço as pessoas, apesar de nunca nos termos conhecido. E até reconheço o cão. Fazem todos parte do meu romance Chocolate, e este é o cenário do filme.

A cena tem os elementos surreais de um sonho. De um dos lados, consigo ver a Carrie-Anne Moss envergando um impecável saia-casaco, pérolas, chapéu e luvas brancas e passando a alta velocidade numa pequena scooter por uma mesa comprida coberta de bolos; Juliette Binoche está sentada numa cadeira de lona enquanto lhe arranjam o cabelo; uma pequena rapariga com uma capa vermelha está a trepar um andaime e, ao dobrar a esquina a seguir a uma enorme fileira de luzes, vejo uma mulher sozinha na semiescuridão, a mexer um grande tacho num fogão portátil. Aproximo-me e descubro que o tacho tem chocolate derretido. O aroma que emana é tão forte e rico que enche todo o lugar, aldeia incluída. Dispostas à minha frente, em mesas compridas, estão centenas de figuras de chocolate de todos os tamanhos e feitios; coelhos, cordeiros, peixes, galinhas. E todas elas parecem olhar-me nos olhos. É o suficiente para qualquer pessoa perder o sentido da realidade.

As pessoas perguntam-me com frequência: alguma vez imaginou que isto pudesse acontecer?

De todas as perguntas que tenho de responder, esta é a que mais me assusta. Poderia ter alguma vez imaginado que o meu pequeno livro, escrito nas manhãs de domingo entre o meu emprego como professora e a minha filha de três anos, iria provocar tudo isto?

É claro que sim. No fim de contas, é isso o que eu faço. Imagino coisas.

No entanto, não espero que elas se realizem.

(Primeira parte de um artigo da autoria de Joanne Harris, publicado no Daily Telegraph, sobre a adaptação de Chocolate ao cinema. Não perca o resto nos próximos dias)

publicado por Rita Mello às 09:57

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