14
Jan 09

A vida marítima açoriana é espectacularmente variada; cerca de vinte e cinco espécies de baleia visitam as ilhas, e durante a nossa primeira excursão avistamos cachalotes, baleias-bicudas, baleias-piloto e golfinhos.

 
Digo primeira excursão. Ninguém consegue resistir a uma segunda – de facto, podíamos fazer a mesma excursão todos os dias durante uma semana que veríamos diferentes tipos de vida marítima de todas as vezes – peixes-voadores, tartarugas marítimas, golfinhos-piloto. Mas a nossa última excursão foi ainda mais excitante – antes de regressarmos a São Miguel fizemos uma reserva para nadar com estas criaturas.
 
Este é o ponto alto das nossas férias. Vamos seis pessoas para o alto-mar no mesmo tipo de barco a motor que usámos para observar as baleias. A excursão demora uma tarde inteira e, apesar de só duas pessoas poderem estar na água de cada vez, teremos várias oportunidades para nadar. Mas, primeiro, temos de encontrar golfinhos e rezar para que estejam com disposição para brincar. Se houver algum sinal de ansiedade teremos de os deixar sozinhos.
 
Demoramos cerca de uma hora a encontrar o primeiro grupo. São golfinhos-estriados, e eu e a Anouchka somos as primeiras a nadar, entrando lentamente, para não os assustar, na água quente quase tropical.
 
Mergulhamos e ficamos espantadas pela súbita dimensão do ambiente. A água é de um azul luminoso e é tão límpida que conseguimos ver até onde os nossos olhos nos deixam. A profundidade aqui está entre os mil e os dois mil metros – território de Jules Verne – e o simples facto de aqui estarmos é como uma espécie de regozijo assustador. Apesar disso, os golfinhos parecem ter desaparecido – de súbito vejo-os novamente, a nadar a uma certa distância debaixo de mim, vinte ou talvez mais, a prestarem pouca atenção à desajeitada nadadora que está no caminho da luz. E estão a cantar. Ouço-os claramente; uma nota longa, aguda e ressonante que abre estridentemente caminho através da água. Anouchka levanta o polegar na minha direcção; também ela os consegue ouvir e seguimo- -los durante cinco ou mais minutos até que o conjunto de golfinhos se vai embora e nós regressamos ao barco.
 
Repetimos esta experiência mais seis vezes nesse dia e outras cinco no dia seguinte. Encontramos golfinhos-piloto e golfinhos-pintados e nadamos com ambos. Alguns chegam-se muito perto de nós. Mas nada supera aquele primeiro contacto com outras espécies no seu próprio elemento. É uma experiência arrepiante, profunda e quase religiosa que sei que vai ficar comigo durante muito tempo.
 
Apesar disso, a questão é: quanto tempo este pequeno paraíso ainda vai durar? Talvez seja do romantismo que por aqui prevalece, mas depois disto tenho uma certa relutância em escrever sobre estas ilhas, como se se não o fizesse eu conseguiria ajudá-los a preservar esta aura digna de Brigadoon que lhes confere o seu encanto.
 
É que é a escala das coisas que faz com que os Açores sejam tão diferentes e especiais. Apenas com umas dúzias de turistas de cada vez é que se torna aceitável que um restaurante sirva comida cozinhada num tacho enterrado no meio de uma montanha; ou que uma empresa de excursões dispense seis horas, um barco e dois tripulantes para que quatro ou cinco pessoas possam nadar com golfinhos. Mas rapidamente tal deixará de ser possível se o fizerem em grande escala.
 
Por isso não consigo deixar de sentir que testemunhei os últimos dias da Atlântida – alegremente livre (mas durante quanto tempo?) dos excessos do século XXI. E é com uma oração sentida ao deus das pequenas coisas que Anouchka e eu embarcamos no avião de regresso a casa – para, por favor, deixar que as ilhas continuem como estão. Perfeitas – para sempre.

Artigo publicado no Daily Telegraph, no dia 11 de Setembro de 2006. 

publicado por Rita Mello às 10:42

12
Jan 09

 

No terceiro dia, voamos para a cidade da Horta, na ilha do Faial, no grupo central do arquipélago dos Açores. Desde São Miguel, o voo demora uma hora, e, no mínimo, esta ilha mais pequena parece estar ainda mais perto da perfeição.
 
Viver aqui é como estar apaixonado, dizem os nossos guias; e eu percebo bem o que eles querem dizer. Conhecida por ilha Azul pelas suas hortênsias e vegetação, o Faial oferece uma espectacular variedade de cenários numa área bastante pequena, com vales verdes e pastagens de um lado, e os resultados malditos e apocalípticos de uma actividade vulcânica recente do outro. Há um farol semienterrado na cinza vulcânica; uma aérea desértica que se assemelha ao solo marciano; e locais fabulosos para tomar banho à volta de toda a ilha – apesar de existirem algumas praias, as torrentes de lava formaram locais maravilhosos para se nadar abrigados do mar aberto, onde Anouchka pode ficar durante horas a fazer mergulho, escalar rochas e inspeccionar a vida marítima aprisionada nas várias piscinas.
 
À noite, a marina é o local para se estar. A vida nocturna é sociável e pouco sofisticada, e existem vários restaurantes e bares. Nos Açores, quanto mais simples for a comida melhor. Nos hotéis e restaurantes nota-se a influência das escolas de hotelaria na comida, mas quase todos os cafés e os bares têm refeições baratas e saborosas, e o Peter Café Sport na Horta, à beira-mar, é o sítio preferido dos habitantes da ilha, com espetadas de marisco, excelentes bifes, cherne grelhado e saladas, com bom pão, queijos locais e vinhos portugueses.
 
A ilha do Pico fica mesmo ao lado, e o horizonte da Horta é dominado pelo seu cone perfeito. É um vulcão saído directamente de um livro de Rider Haggard, e não resistimos a fazer uma visita de um dia. Pode-se subir até ao cume do vulcão, apesar demorar algum tempo (até cinco horas para subir, dependendo do tempo, e cerca de metade para descer), e é preciso ir-se acompanhado de um guia registado. Uma volta à ilha de táxi oferece uma pequena mas fascinante amostra do Pico, incluindo vistas extraordinárias do próprio pico, de lagos, de uma caldeira mais pequena e do famoso Museu dos Baleeiros – apesar de tanto eu como a Anouchka acharmos que existem formas mais agradáveis de se verem as baleias no Pico.
 
A observação de baleias é uma experiência única, e dizem-nos que o melhor sítio para se tentar isso é no Faial. O nosso barco a motor tem apenas oito lugares sentados, e os organizadores fazem todos os possíveis para as baleias não ficarem perturbadas pela presença de pessoas. Não é permitido mais do que um barco, e mantemos sempre a distância. Fico impressionada pelo cuidado e sensibilidade mostrados pelos nossos guias, e tenho a consciência do raro privilégio de ser ver estes gigantescos mamíferos no seu habitat natural.

publicado por Rita Mello às 18:03

09
Jan 09

Os Açores fazem parte de Portugal e têm uma forte identidade católica, com velas e imagens de santos à venda em todas as lojas de esquina e bancas de jornais. Mas os santos dos Açores são um grupo bastante animado; há festivais quase todos os dias, e na nossa primeira noite em Ponta Delgada, Anouchka e eu comemos na esplanada de um pequeno café, onde (para além de termos desfrutado das melhores e mais frescas sardinhas que já comi) fomos alegremente arrastadas pelos locais para um dos muitos cortejos de rua, com dançarinos, músicos e acrobatas.

 
Qualquer desculpa é boa para uma festa, responderam-me quando perguntei que festival era aquele. Aqui, há tão pouca coisa para fazer…
 
No dia seguinte, parti com Anouchka para descobrir o que havia para fazer. Os nossos amigos da noite anterior ou estavam a ser modestos ou estavam a brincar; a ilha é espectacular em todos os sentidos. Luxuriantemente verdejante, é um paraíso para quem gosta de jardinagem; agapantos, choupas, ervas-ursas e hortênsias que crescem em todo o lado, e qualquer edifício abandonado ou árvore caída é imediatamente devorado pelas ipomeias que cobrem tudo a uma velocidade quase tropical.
 
Nos dias seguintes, visitamos plantações de chá e de ananás; beberricamos sumo de morango junto a uma cratera de um vulcão; visitamos as famosas Lagoas Gémeas, uma verde e a outra azul, em Sete Cidades, e escutamos os relatos românticos e melancólicos de como as lagoas foram formadas (os açorianos são grandes contadores de histórias, quanto mais melancólicas e românticas melhor).
 
Visitamos o vale sulfúreo das Furnas, com as suas águas e lamas em ebulição, recordando-nos de que, apesar dos vulcões açorianos estarem em descanso, estão longe de estarem extintos. No restaurante Tony’s, comemos ananás cultivado localmente, morcela com inhames cozida de forma tradicional debaixo da terra na caldeira das Furnas; e tomamos banho na piscina termal do velho e refinado Hotel Terra Nostra, onde a água da nascente está tão carregada de minerais que até o fato de banho da Anouchka fica oxidado.

publicado por Rita Mello às 17:38

08
Jan 09

Joanne Harris esteve nos Açores, em 2006, e apaixonou-se pelo arquipélago, descobrindo as ilhas da fantasia da sua juventude no meio do oceano Atlântico.

 
Leia a primeira parte do artigo que a romancista escreveu para o Daily Telegraph e acompanhe a escritora nesta viagem inesquecível.

Desde sempre me senti fascinada por ilhas. Quanto mais pequenas e remotas melhor. O meus livros preferidos estavam cheios delas – desde Robinson Crusoé a The Search for Atlantis – e passava a maior parte das aulas de Geografia a desenhar furtivamente ilhas imaginárias (e, é claro, desertas), com vulcões, cavernas de piratas, baús de tesouros e águas infestadas de tubarões – ingredientes familiares para quem cresceu com os romances de Jules Verne, Herman Melville e Willard Price.

 
Por isso, é com uma estranha sensação de déjà-vu que aterro com a minha filha Anouchka de treze anos em São Miguel, a maior ilha dos Açores, um arquipélago com nove ilhas vulcânicas estendidas ao longo de 600 quilómetros no meio do oceano Atlântico, como se fossem um colar fabuloso.
 
As ilhas formam três grupos; São Miguel e Santa Maria a leste; o grupo central com a Terceira, a Graciosa, São Jorge, Pico e Faial; e Flores e o Corvo a oeste. Do ar elas são exactamente como as imaginava; a ver-se a espuma do mar nas pontas; salpicadas de vulcões de todos os tamanhos (alguns ainda a fumegar); e enormes áreas de um verde fabuloso.
 
As chegadas no aeroporto são tranquilizadoramente calmas. Apesar de uma descrição dos Açores parecer uma lista das “Dez Coisas Mais Fixes que se Podem Encontrar num Lugar” feita pela Anouchka (um sol fantástico, vulcões em actividade, baleias assassinas, lagos de lama a borbulhar, nadar com golfinhos, plantações de ananás, um mar mais azul do que o que se vê nos filmes e a emocionante possibilidade de se ver uma caravela-portuguesa, a medusa mais mortífera dos oceanos), o turismo ainda parece ter tido pouco impacto na ilha. A vida aqui desenrola a um ritmo lento; os visitantes são genuinamente bem-vindos; há pouca animação nocturna e quase nenhuma criminalidade; e as viagens de curta duração e a sua informalidade são uma magnífica mudança das excursões nas costas de betão de Espanha, em as pessoas são tratadas como gado.
 

A nossa viagem passa por três das nove ilhas: São Miguel, Faial e Pico. São Miguel é a maior, e a sua capital, Ponta Delgada, recebe a maior parte dos visitantes. É encantadora, e parece a Madeira como eu a imagino que tenha sido há cinquenta anos, com a sua marina, o castelo, as suas ruas com calçadas e palmeiras, o seu mercado e lojas e os pequenos cafés acolhedores. E se isto é a capital, adorava ver as zonas rurais; as horas de ponta duram cinco minutos, e nunca tinha visto condutores tão corteses.

publicado por Rita Mello às 18:06

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