09
Out 12

Como foi regressar a Lansquenet?

Tal como Vianne, também eu estive relutante em regressar. Tal como Vianne, eu estava dividida entre o meu desejo de explorar novos lugares e o sentimento de que tinha deixado algo de importante para trás. No final, foi surpreendentemente fácil. Tinha medo que se tivesse tornado irreconhecível, o que me teria deixado triste, mas de alguma forma também teria ficado insatisfeita se não tivesse mudado nada. Em Chocolate, eu retratei um tipo de comunidade francesa rural e isolada que sofrera poucas mudanças nos últimos cinquenta anos; em O Aroma das Especiarias eu queria mostrar o efeito da mudança naquela comunidade. Foi por isso que introduzi outro grupo étnico em Lansquenet – uma ocorrência pouco usual no Sudoeste rural – para explorar as formas como duas culturas bastante distintas podem interagir (ou não) num cenário tão tradicional.

Quando é que a história se desenrola exatamente?

Chocolate era de alguma forma intemporal, podia se ter passado em qualquer época. Os Sapatos de Rebuçado, com Paris como cenário, era inevitavelmente passado na atualidade. O Aroma das Especiarias desenrola-se num período específico: o Ramadão, em agosto de 2010, pouco antes de o governo francês proibir o véu islâmico.

Não é um bocado arriscado escrever sobre o islão hoje em dia?

O Aroma das Especiarias não é sobre o islão, tal como Chocolate não era sobre o catolicismo. Ambas as histórias são sobre intolerância, preconceito, xenofobia e sobre o modo como a religião pode ser usada para reforçar isso.

De onde lhe surgiu a ideia?

Eu vivo numa cidade com uma população muçulmana substancial. E reparei no número crescente de jovens a usar o niqab. Falei com algumas delas sobre os seus motivos e recebi respostas muito distintas, desde: “Porque o meu marido quer que o faça”, “Porque não quero falar com ninguém que não conheça”, “Porque tenho o direito de o fazer”. Ao mesmo tempo, a França estava a preparar-se para banir totalmente o véu (até os lenços de cabeça foram banidos na escola). Na altura pareceu-me fazer bastante sentido trazer este assunto para Lansquenet.

Fala-se muito sobre o uso do niqab no seu livro. Porquê?

Porque acho esse assunto interessante. Por um lado é uma forte imagem de isolamento, por outro lado é um pedaço muito pequeno de tecido que causa enorme controvérsia. O véu significa muita coisa para muitas pessoas ao longo dos anos: um símbolo de opressão, um sinal de devoção, uma bandeira de protesto político. Em França, um país que tem bastante orgulho nos seus ideais de liberdade e igualdade, foi banido. E eu estou interessada nas razões.

Acha que deve ser banido?

Preferia que as mulheres não usassem o véu, mas não tenho a certeza se a legislação é capaz de abordar os motivos complexos que o rodeiam, que se tornaram políticos, em vez de simplesmente religiosos. Não acho que a política e a religião se devam misturar. Desconfio de toda a gente que usa a religião como parte da sua agenda política.

Em Chocolate, o padre é o mau da fita. Em O Aroma das Especiarias, ele é quase o herói. Porquê?

Eu sempre pensei em Francis Reynaud mais como uma figura incompreendida do que como mau. Ele tem imensos defeitos: é intolerante, crítico e arrogante – mas sempre fez o que achou melhor segundo os seus princípios. Mas, tal como Vianne, em Os Sapatos de Rebuçado, Reynaud tem uma jornada a percorrer e, de certo modo, O Aroma das Especiarias é a sua história.

E Vianne?

Também é a história dela. Sempre achei que Vianne e Reynaud tinham mais em comum do que sabiam. Muitos leitores de Chocolate assumiram logo um retrato a preto e branco dos dois protagonistas. Acho que vão ter de reavaliar as suas opiniões.

Revisita outras personagens de Chocolate neste livro?

Sim. Desde Chocolate que fiquei preocupada com o facto de ter deixado muitas coisas por resolver – especialmente a relação entre Joséphine e Roux. Em O Aroma a Especiarias, algumas dessas questões são respondidas. Nem todas, mas a vida é mesmo assim…

E Inès Bencharki? Fale um bocado sobre ela.

A mulher no seio dos problemas atuais de Lansquenet tem algumas semelhanças com a própria Vianne. Tal como Vianne, ela é uma mulher solteira com uma filha jovem. Tal como Vianne, ela muda-se para a casa em frente à igreja e entra em conflito com o curé. Mas, ao contrário de Vianne, Inès é ferozmente reservada, mesmo em relação à sua própria comunidade de Les Maurads. Escondida sob o véu preto ela é impermeável a boatos, hostilidade e ofertas de amizade. Nem mesmo a magia de Vianne – e os seus chocolates – tem poder sobre ela.

Então, Vianne encontrou finalmente uma rival à altura?

Em todos estes livros, os principais adversários de Vianne têm algumas características dela. Em Chocolate, ela tinha de enfrentar o espectro dos Homens de Preto, um medo de infância personificado por Francis Reynaud. Em Os Sapatos de Rebuçado, era o espectro de Zozie de l’Alba, uma imagem do que Vianne poderia ter sido se não tivesse tido as filhas. Em O Aroma das Especiarias, Vianne terá de confrontar os seus receios e o seu preconceito…

Porque se passa o livro durante o Ramadão?

Em parte porque gosto dos paralelos com Chocolate, que se passava durante a Quaresma. A relação entre jejum e banquetes é complexa e eu queria revisitar a idea através de uma perspetiva diferente.

Foi um desafio escrever sobre uma cultura diferente?

É sempre um desafio, mas não acho que seja tanto sobre escrever sobre uma cultura em particular mas mais sobre perceber o que as pessoas acham importante. O meu ponto de partida é a comida, mas a comida como reflexo do que as pessoas sentem e como se relacionam uns com os outros, mais do que uma coleção de receitas.

Há muita sensualidade neste livro. Foi deliberado?

Na verdade não planeio estas coisas. Mas gosto que uma história seja uma experiência completa, o que significa que gosto de explorar sabores, aromas e sensações, bem como sons e impressões visuais.

E a magia? Há lugar para a magia num livro passado nos tempos atuais?

Sem dúvida. Até acho que nunca precisamos tanto de magia. Mas a minha magia nunca foi pirotécnica. É a magia do dia a dia, que é mais sobre mudança do que outra coisa – isto é, mudar o mundo à nossa volta, um passo de cada vez, bem como mudar a forma como os outros nos veem, que é o género de magia a que todos temos acesso…

publicado por Rita Mello às 10:40

25
Set 12


Que atriz desempenhou o papel de Vianne Rocher na adaptação para o cinema de Chocolate?

Resposta certa: Juliette Binoche

Vencedora: Raquel Sofia Lima Martins

publicado por Rita Mello às 16:57

18
Set 12

 


Aos 2000 fãs cujo apoio tem sido essencial para fazer deste Chocolate um bálsamo para a Alma, a equipa da ASA agradece do fundo do coração e convida a participar no novo passatempo de O Aroma das Especiarias, de Joanne Harris. Foram tantas as participações que não queremos deixar de dar uma nova oportunidade ao fãs da autora!

Veja como participar no blogue Chocolate para a Alma.

publicado por Rita Mello às 14:01

13
Set 12

 

Que livros constituem com O Aroma das Especiarias a trilogia Chocolate?

Vencedores:

9 – Daniela Mirante

77 – Marieli Inês da Costa

234 – Liliana Cristina Moutinho da Costa


Parabéns aos vencedores e obrigada a todos os participantes!

publicado por Rita Mello às 15:30

10
Set 12

Uma das coisas que a escrita me ensinou é que a ficção tem vida própria. Os lugares ficcionais são muitas vezes mais reais do que a vista a partir da janela do quarto. As personagens ficcionais podem às vezes se tornar tão chegadas quanto as pessoas que mais estimamos. Eu lembro-me da primeira vez em que me apercebi disto, aos dez anos, ao ler O Deus das Moscas, quando chorei por causa da morte ficcional de um rapaz ficcional num lugar ficcional. Tinha sido porque o autor fora capaz de tornar aquilo real, real o suficiente para se acreditar. Foi nesse momento que, no meu íntimo, eu soube que queria ser mais do que um dedo numa página, a seguir as linhas impressas. Eu queria conduzir a máquina dos sonhos. Mais do que isso, eu queria ser dona dela.

Mas a máquina dos sonhos tem por hábito tomar ela própria as rédeas. Em 2000, o meu livro Chocolate, uma história engraçada sobre uma mulher chamada Vianne Rocher, a sua filha Anouk e a chocolataria delas tornou-se com alguma surpresa num sucesso de passa a palavra e depois num filme nomeado para um Óscar. Subitamente era um grande sucesso. As minhas palavras foram traduzidas para mais de cinquenta línguas, as minhas personagens tornaram-se conhecidas em todo o mundo e, em todo o lado, as pessoas tentavam descobrir a aldeia (ficcional) onde elas moravam.

Desde então tenho recebido uma avalancha de cartas de leitores a anunciar que tinham encontrado Lansquenet-sous-Tannes, ou até mesmo visitado a chocolataria de Vianne. Diversas aldeias no Sudoeste de França reinvindicam ser a “verdadeira” Lansquenet, algumas chegam mesmo a colocar cartazes a anunciar isso a turistas. Um fã japonês estava convencido de que Lansquenet era na verdade a sua aldeia e de que eu vivia secretamente lá, observando-o a ele e aos seus vizinhos.

O que tinha Lansquenet para conquistar os corações de tantos leitores? Mesmo agora, não faço ideia. Está para além do amor que tantos britânicos têm por França: o gosto pela comida francesa e pelo vinho; o charme do Sudoeste rural. Talvez seja uma nostalgia partilhada por um tempo maioritariamente ficcional, ou talvez alguns leitores se reconheçam de algum modo nas personagens da minha história.

publicado por Rita Mello às 10:30

07
Set 12

publicado por Rita Mello às 14:30

28
Ago 12


publicado por Rita Mello às 09:38

 

 

Viemos com o vento de Carnaval. Um vento morno para Fevereiro, carregado dos cheiros quentes e gordos de panquecas e salsichas a fritar e waffles polvilhadas de açúcar e preparadas na chapa quente ali mesmo à beira da estrada…

 

A aldeia de Lansquenet-sur-Tannes tem duas novas moradoras: Vianne Rocher, jovem mãe solteira, e a sua filha Anouk. Ambas correram mundo e viveram um sem-fim de aventuras, e a pacata aldeia francesa é o sítio ideal para a tranquilidade que agora desejam. Vianne tem um dom: domina a arte da chocolataria como ninguém e as suas guloseimas conseguem suavizar os corações de quem as saboreia. E agora ela vai concretizar um sonho, um sonho delicioso mas, naquelas paragens, pouco comum: uma chocolataria com o nome de La Céleste Praline.

Para a aldeia, La Céleste Praline e a sua encantadora proprietária são um sopro de ar fresco frente à tirania de Francis Reynaud, o austero padre a quem desagrada aquele comércio demasiado sofisticado e “tentador”, e que vê em Vianne um desafio à sua autoridade. Frente a ele, a jovem só pode apelar à alegria de viver das gentes de Lansquenet. Mas nem a própria Vianne podia antecipar os efeitos que os seus chocolates vão provocar numa comunidade pouco habituada a viver a magia do quotidiano...

 

Chocolate é um repertório de aromas e sabores, descritos de uma maneira tão viva que quase se sentem; é também uma galeria de personagens ternos e cruéis, amáveis e odiosos, mas sempre intensos e credíveis.

Um romance muito especial que nos abre a porta para um mundo inesquecível.

publicado por Rita Mello às 09:00

22
Ago 12

Enquanto escrevia Sapatos de Rebuçado apercebi-me de que estava a abrir um precedente perigoso. Nunca é fácil para um escritor revisitar as personagens que criou – o tempo muda-nos a todos e às vezes é mais fácil não olhar para trás. Mas, quando acabei o livro, apercebi-me de que o que fiz foi pior do que isso; tinha escrito o segundo volume do que seria uma trilogia. Mesmo agora, não estou inteiramente convencida de que Vianne não está inteiramente acabada para mim – talvez haja mais sobre ela um dia destes (ou talvez sobre Anouk e Rosette), estamos ligadas, ela e eu, de formas que não compreendo inteiramente. Estou ligada a todas as minhas personagens, é claro, mas de alguma forma Vianne Rocher é a que aparece sempre inesperadamente, envolvendo-me nos seus assuntos (muitas vezes contra a minha vontade) e exigindo o meu tempo e a minha atenção.

Em Sapatos de Rebuçado, encontrámos Vianne quatro anos depois dos acontecimentos descritos em Chocolate. A morar em Paris sob um nome falso, com a sua filha Anouk e uma outra, Rosette, de quatro anos, Vianne parece ter perdido tanto o seu rumo como a sua identidade. Mas graças a Zozie de l’Alba, um espírirto livre perverso com um apetite pelas vidas de outras pessoas, Vianne foi finalmente forçada a confrontar o seu inimigo e os seus medos. Deixei-a em Paris com as filhas e Roux, uma vez mais reconciliada consigo própria, em paz com o passado e meio convencida de que tinha conseguido encontrar uma forma de assentar…

Mas com Vianne as coisas nunca são fáceis. Sempre soube que o vento voltaria a soprar. Também sabia que Lansquenet ainda não tinha acabado para nenhuma de nós. E Vianne, como eu própria, tende a ser especialista em fazer precisamente o que tinha prometido não fazer – neste caso, regressar a Lansquenet. A questão nunca foi se, mas quando. Há correntes a que não se consegue resistir.

Era apenas uma questão de tempo.

publicado por Rita Mello às 12:30

31
Ago 11

O National Youth Ballet of Great Britain tranpôs para ballet o bestseller Chocolate, de Joanne Harris. A estreia teve lugar no E. M. Forster Theatre, em Tonbridge, no Kent, sendo que haverá uma gala com este ballet no Sadler's Wells, em Londres, no dia 11 de Setembro.

O ballet é coreografado pela estrela em ascenção Andrew McNicol, que afirmou à BBC que escolheu Chocolate por ser "uma história de aceitação de nós próprios e dos outros".

"É uma história de amor e coragem que contém uma forte mensagem universal. Tem vários nivéis de leitura e é apropriada para grandes audiências", referiu o premiado coreógrafo, de apenas dezanove anos.

Podem assistir ao vídeo de um ensaio aqui.

publicado por Rita Mello às 10:41

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