01
Jan 10

 

Uma história de caça às bruxas, regicídio e frenesim religioso na França do século XVII...

Forçada pelas circunstâncias a procurar refúgio com a sua jovem filha na remota abadia de Sainte Marie-de-la-Mer, a actriz Juliette reinventa-se como Sóror Auguste sob a tutela de uma bondosa abadessa. A pouco e pouco, Juliette adapta-se a tão grande mudança: ao colorido das viagens e constantes descobertas da sua vida de actriz seguem-se as novas exigências de uma existência em semiclausura. Mas os tempos estão a mudar: o assassinato de Henrique IV transforma-se num catalisador para a sublevação em França, e a nomeação de uma nova abadessa, cuja ânsia pela Reforma não conhece limites, rapidamente destrói tudo aquilo que Juliette começara a amar na sua nova vida. Mas o pior está ainda para vir... A nova abadessa, Isabelle, é uma criança de onze anos, vinda de uma família nobre e corrupta, e faz-se acompanhar de um fantasma do passado de Juliette: disfarçado de clérigo, eis um homem que ela tem todas as razões para temer…
Tratando com subtileza um tema delicado – a religião como subterfúgio, como manobra de evasão face às dolorosas realidades da existência – Joanne Harris constrói uma história bem ao seu jeito, tocante e vívida, apaixonante desde a primeira página.

publicado por Rita Mello às 14:46

08
Jun 09

A maior parte das minhas histórias têm algum tipo de fundamento em factos, apesar de como escritora de ficção me ser permitido ter algumas liberdades (e eu tenho-as). Ocasionalmente, como em Na Corda Bamba, uso um acontecimento real ou uma figura histórica como ponto de partida para uma história, mas na maior parte das vezes os meus enredos são inventados por mim. Às vezes, quando crio uma personagem, adopto algumas características das pessoas que estão à minha volta (família, amigos, colegas), apesar de nunca tentar recriar uma pessoa real nas páginas de um livro. Em vez disso, uso o realismo emocional; os detalhes podem ser inventados, mas os sentimentos são verdadeiros (sejam eles raiva, amor ou sede de vingança), depois as personagens ganham vida e a história, apesar de improvável, parece mais convincente ao leitor.

publicado por Rita Mello às 09:00

26
Dez 08

Muitos leitores assumem que os meus livros são autobiográficos. Isto não é verdade, apesar de a minha escrita reflectir por vezes o que me está a acontecer nessa altura. Enquanto escrevia Cinco Quartos de Laranja, eu estava a sofrer de enxaquecas e de insónias, e isso transpareceu vividamente na história. Em Chocolate e Na Corda Bamba apareciam mães trabalhadores com filhas novas, em ambos os casos constrangidas por algum tipo de instituição – o que reflecte o meu próprio papel dúplice como professora na Leeds Grammar School e como mãe de uma criança pequena. Nem sempre estou consciente de que estou a fazer isto, nem de que tenha sido de propósito, mas acontece; e muitas vezes são estes os aspectos dos meus romances com que os leitores mais se identificam. Apesar das histórias poderem ser ficcionais, os sentimentos dentro delas – quer sejam eles o ódio, o amor, a inveja ou a necessidade desesperante de uma boa noite de sono – são meus. Não consigo escrever sobre coisas acerca das quais não tenho sentimentos fortes, e é por isso que escolho cenários familiares para as minhas histórias e as povoo com personagens meio familiares.

 

Escrevo pelos menos três esboços para cada romance. O primeiro é para consumo próprio, o segundo vai para a minha agente e o terceiro vai com as sugestões, críticas e alterações que os meus vários editores e leitores me enviaram. Às vezes discordo deles, e nesse caso não faço nenhuma alteração. No início, mudava alguns aspectos da minha escrita para facilitar o processo de publicação, e desde essa altura que me arrependo disso; agora arrisco mais e sigo mais depressa os meus instintos. Gosto de arriscar na narrativa. Prefiro manter o enredo do romance flexível, daí que raramente tenha toda a história planeada. Detesto escrever sinopses – apesar de os editores quererem sempre ver uma – porque raramente tenho informações suficientes sobre os meus livros para poder explicar o que vai acontecer no final. Frequentemente, as reviravoltas e revelações de última hora nos meus livros apanham-me tanto de surpresa como ao leitor. Adoro quando isso acontece, porque é sinal de que as personagens, e não o autor, apoderaram-se do livro. Por outro lado, torna-se mais difícil para mim estruturar a obra final.

 

Ainda escrevo largamente por prazer. Acho alguns dos aspectos não criativos do trabalho aborrecidos – coisas como a revisão e a edição – e tendo a ser impaciente com isso, porque tiram-me tempo àquilo que eu gostaria de estar a fazer, que é escrever histórias. Eu executo estas tarefas administrativas em dias em que não me consigo concentrar no processo criativo, ou em alturas do dia em que sei que já esgotei a minha inspiração. Acabo de trabalhar por volta das três da tarde. De qualquer forma, já não consigo pensar bem nessa altura e preciso de descontrair antes de a minha filha chegar a casa da escola. Tento não trabalhar quando ela está em casa; e quando ela está de férias eu só trabalho até à hora de almoço e depois passamos o resto do dia juntas. O tempo é um bem tão precioso, e nós temos tão pouco. Ao final da tarde gosto de descontrair na banheira – o único sítio onde consigo ler sem ser interrompida – com algumas velas aromáticas e uma garrafa de vinho. Não se isso faz parte ou não do processo criativo – mas, de qualquer forma, é a desculpa que eu dou.

publicado por Rita Mello às 16:21

22
Dez 08

O meu dia normal começa por volta das sete da manhã. Não consigo ficar na cama – fui professora durante tantos anos que ainda acordo automaticamente, quer queira ou não. Não funciono bem de manhã sem chá, por isso faço algum e levo-o para a biblioteca. É aí que eu gosto de trabalhar; é um sítio calmo e tem uma vista maravilhosa, apesar de ainda estar a habituar-me a ter um sítio só para mim. Durante muito tempo não tive uma secretária e costumava escrever num portátil no chão da sala de estar. Actualmente, ainda uso um portátil e ainda trabalho no chão, apesar de já ter uma secretária. É uma secretária de escola da época vitoriana, com um tinteiro e um tampo, e é ridiculamente pequena. Toda a gente se ri dela, mas acho que me fica melhor do que uma secretária séria, com um mata-borrão e um fax.

 

O meu trabalho rende mais de manhã, especialmente no Verão. No Inverno fico deprimida e letárgica, sendo muito difícil para mim trabalhar, por isso grande parte do meu trabalho é realizado entre Março e Novembro. Sou muito sensível ao tempo e às estações, e isso afecta o modo como (e se) trabalho. Não fico angustiada com isso; consigo ver geralmente em meia hora se o meu dia vai ser produtivo, e se não estiver com vontade, não trabalho. Em vez disso, vou ao ginásio ou vejo um filme ou então vou dar um passeio a pé. Não conto as páginas que faço e não trabalho seguindo um horário de trabalho. No entanto, fico muito nervosa quando não escrevo, ou não o consigo fazer. A minha motivação tem a ver com necessidade e não com disciplina. Detesto prazos e faço de tudo para os evitar, é por isso que sou tão reservada em relação ao meu trabalho em progresso, até mesmo para a minha agente.

 

Desde que escrevi Chocolate, que foi quando deixei a docência, que publico um livro por ano. Isso não quer dizer que escreva um livro por ano – alguns levam mais tempo do que outros, e, de qualquer modo, os meus livros nem sempre foram publicados pela ordem de escrita. Por exemplo, comecei a escrever Na Corda Bamba antes ainda de Chocolate, e ia pegando nele e pondo-o de lado durante cinco anos até achar que me sentia pronta para o terminar. Vinho Mágico e Cinco Quartos de Laranja também não foram publicados pela ordem de escrita. É muito comum ter vários projectos a decorrer ao mesmo tempo. Posso estar a trabalhar numa coisa durante um par de meses e depois mudar para outra completamente diferente – ou porque preciso de fazer alguma pesquisa, ou porque preciso de mudar de ares, ou apenas porque não sei o que vai acontecer a seguir. Tenho um par de projectos onde me posso refugiar quando necessito de uma pausa do meu trabalho em progresso, e que podem nem sequer ser entregues à minha editora. No entanto, acho que esta alternância me ajuda a manter a concentração no trabalho, bem como a manter a minha mente flexível.

 

Às vezes apetece-me fazer algo mais pequeno ou completamente diferente. Os contos são um excelente meio para manter estes impulsos sob controlo, e é por isso que os meus abrangem tantos temas – do western à ficção científica. Costumo escrever mais coisas deste género durante o Inverno, e é por isso que muitos deles são sombrios e selvagens. Ou talvez seja apenas a minha maldade intrínseca a procurar um escape.

 

São poucas as ideias que vêem ter comigo enquanto estou à secretária. Geralmente sou eu que vou ter com elas – quando estou a viajar ou, simplesmente, a falar com pessoas e a ver o que fazem. Os comboios e os aeroportos são muito bons para isto; e ando sempre com pequenos blocos de nota nos quais aponto o que vi ou ouvi. Eu acho as pessoas tremendamente fascinantes, e um dos aspectos maravilhosos deste trabalho é a oportunidade que me dá de conhecer diferentes tipos de pessoas em ambientes bastante variados. No entanto, o processo de escrita é essencialmente solitário. Se tiver de ser, consigo escrever em comboios, aeroportos e, até mesmo, no quarto de brincar da minha filha, mas prefiro fazê-lo quando estou sozinha.

 

Sendo linguista e compositora, sou sensível às notas e aos ritmos das palavras, ao comprimento variável das frases e aos sons característicos de diferentes vozes. Algumas palavras soam-me muito mal e eu não as uso – os meus editores americanos pedem-me muitas vezes para mudar algumas palavras e expressões para a edição americana, mas às vezes acho que alguns americanismos estão desajustados em relação ao resto, e eu não gosto de fazer essas alterações. Leio muitas vezes as minhas páginas em voz alta; é a única forma que tenho de saber se realmente consegui evocar o que pretendia; se uma frase soa mal quando lida em voz alta eu livro-me dela.

publicado por Rita Mello às 16:56

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